A tese de doutorado de Thais Moreira Valim, que recebeu Menção Honrosa no Prêmio ESOCITE.BR em 2026, mergulha nos bastidores científicos da epidemia de Zika para compreender como a Síndrome Congênita do Vírus Zika (SCVZ) foi produzida como uma nova entidade médica e científica no Brasil. Realizada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília, sob orientação da antropóloga Soraya Fleischer, a pesquisa articula antropologia, saúde coletiva e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (CTS) para investigar as práticas, relações e infraestruturas mobilizadas durante a emergência sanitária em Recife-PE.
Intitulada “Fazendo ciência, fazendo a Síndrome Congênita do Vírus Zika: práticas, relações e infraestruturas científicas na resposta à epidemia de Zika em Recife/PE”, a tese acompanha não apenas os efeitos sociais da epidemia, mas o próprio processo de produção da ciência em contextos de crise. A autora parte de uma questão central: como se faz ciência em uma emergência sanitária? Em vez de olhar apenas para os resultados científicos já estabilizados, a pesquisa acompanhou as redes de colaboração, os conflitos, os protocolos, os laboratórios, os hospitais, as assistentes de campo, as mães e as crianças que participaram da construção da SCVZ como fato científico e diagnóstico médico.
Baseada em uma extensa pesquisa etnográfica realizada entre 2018 e 2024, a tese mobilizou 93 entrevistas com 78 cientistas e profissionais de diferentes áreas, incluindo epidemiologia, obstetrícia, fisioterapia, antropologia, infectologia, neurologia, serviço social e vigilância epidemiológica. A investigação também envolveu observação participante, análise de artigos científicos, protocolos e documentos institucionais, permitindo acompanhar tanto a “ciência visível” quanto os trabalhos invisibilizados que sustentaram a resposta ao Zika.
Um dos principais aportes conceituais do trabalho é a noção de “infraestruturas de coprodução”. Para Thais Valim, as infraestruturas científicas não são apenas equipamentos laboratoriais, bancos de dados ou tecnologias biomédicas. Elas incluem também relações éticas, redes colaborativas, formas de cuidado, práticas institucionais e articulações políticas que tornaram possível a produção de evidências sobre o Zika. A autora demonstra que a ciência não emerge de forma isolada em laboratórios, mas depende de uma complexa teia de pessoas, instituições e afetos. Ao longo dos cinco capítulos da tese, Valim acompanha diferentes dimensões dessa rede infraestrutural. O primeiro capítulo reconstrói o processo pelo qual o Zika deixou de ser tratado como uma arbovirose secundária para se tornar uma emergência sanitária internacional. A autora mostra como especialistas, hospitais e redes epidemiológicas foram mobilizados para transformar a hipótese de relação entre Zika e microcefalia em um fato científico reconhecido nacional e internacionalmente.
Nos capítulos seguintes, a pesquisa evidencia como diferentes grupos científicos caracterizaram a SCVZ a partir de repertórios metodológicos distintos. Obstetras, fisioterapeutas, epidemiologistas e antropólogos produziram diferentes formas de conhecer a síndrome, revelando que a ciência é atravessada por disputas de linguagem, prioridades analíticas e formas de evidência. A autora também analisa as tensões presentes nas colaborações científicas internacionais e nos grandes consórcios de pesquisa que surgiram durante a epidemia, especialmente nas relações entre instituições do Norte e do Sul global.
Outro aspecto central da tese é a valorização de atores frequentemente invisibilizados na produção científica. As assistentes de campo, as mães e as próprias crianças com SCVZ aparecem como agentes epistêmicos fundamentais para a construção do conhecimento sobre a epidemia. Ao acompanhar o cotidiano das pesquisas em Recife, Valim mostra que essas pessoas não apenas participaram dos estudos, mas também ensinaram cientistas, tensionaram métodos, questionaram protocolos e produziram reflexões éticas sobre o fazer científico.
A pesquisa dialoga diretamente com debates contemporâneos dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia ao problematizar a ideia de neutralidade científica. Thais Valim demonstra que epidemias não são apenas eventos biológicos, mas fenômenos profundamente sociais e políticos, atravessados por desigualdades, disputas institucionais e relações de poder. A tese também evidencia como a chamada “cientificação” da saúde global ampliou a centralidade das evidências biomédicas em contextos de emergência sanitária.
Ao receber a Menção Honrosa do Prêmio ESOCITE.br, a autora destacou justamente o caráter coletivo da produção científica. Em sua reflexão, o reconhecimento individual não apaga a dimensão compartilhada da pesquisa, construída junto a orientadoras, colegas, profissionais de saúde, famílias e crianças afetadas pela epidemia. O prêmio também adquire um forte simbolismo por ocorrer dez anos após o início da crise sanitária, lembrando que os efeitos sociais, científicos e políticos do Zika permanecem presentes e ainda demandam atenção pública e acadêmica.
Mais do que uma investigação sobre a epidemia de Zika, a tese de Thais Moreira Valim constitui uma importante contribuição para o campo CTS brasileiro ao ampliar nossa compreensão sobre como a ciência é produzida em situações de urgência. Seu trabalho revela que fazer ciência é também fazer relações, construir infraestruturas e negociar continuamente entre cuidado, ética, evidência e política.
Tese orientada pela Profa. Soraya Fleischer.
Confiram os trabalhos já premiados pela ESOCITE.BR aqui.

Sobre a pesquisadora
Thais Maria Moreira Valim
Pesquisadora nas áreas de Antropologia da Saúde, Antropologia da Ciência e Antropologia da Criança. Antropóloga, graduada em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília. Integra o Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva (CASCA/UnB) e a Rede Latino-americana de Antropologia Feminista das Ciências e Tecnologias (RAFeCT). Desde 2016, pesquisa os desdobramentos da epidemia de Zika em Recife, acompanhando tanto a experiência das crianças com a síndrome congênita e suas famílias quanto as práticas científicas mobilizadas em torno da crise. Seus interesses de pesquisa concentram-se na interface entre ciência e infância no campo da saúde global.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2004032634064288
Tese: https://repositorio.unb.br/handle/10482/53721
Matéria elaborada por Fernando Monteiro Camargo (bolsista de Jornalismo Científico FAPESP)

