Durante a Assembleia Geral realizada no 11º Simpósio Nacional de Ciência, Tecnologia e Sociedade, em Belém, a ESOCITE.BR apresentou oficialmente o relatório Quem Somos na ESOCITE.BR?: Perfil Associativo e Tendências (2018–2023). O documento, elaborado pela Comissão de Pesquisa e Memória da gestão 2023–2025, constitui um marco para a associação, ao reunir dados sistematizados sobre seus membros ativos, analisar a evolução da comunidade ao longo de cinco anos e apontar desafios e caminhos futuros.
A iniciativa de construir esse retrato coletivo não nasceu por acaso. Como relembra a Comissão, a proposta de realizar um mapeamento vinha sendo amadurecida desde gestões anteriores, com a intenção de fortalecer a associação a partir do conhecimento mais detalhado sobre quem são seus integrantes. Coube à gestão 2023–2025 dar forma a essa tarefa, reunindo esforços de um grupo diverso de pesquisadores. Estiveram à frente do trabalho: Marília Luz David (Coordenadora), Alberto de Lima, Bráulio Silva Chaves, Márcia R. B. da Silva, Noela Invernizzi, Polyana Valente, Ricardo Batista e Fernando Monteiro Camargo. O relatório contou também com a colaboração de Vitória Giovana Duarte, que elaborou o projeto gráfico.
O processo foi descrito pelos membros como coletivo e colaborativo. Ele teve início com a extração dos dados da Plataforma de Membros, base oficial da associação. A partir daí, a Comissão de Pesquisa e Memória discutiu quais informações seriam mais relevantes para compor o perfil, selecionando variáveis como nacionalidade, categoria, país de residência, sexo, idade, região, ano de filiação e filiação institucional. Os temas foram divididos entre os integrantes, que se dedicaram à análise e qualificação dos dados, culminando na elaboração de textos e gráficos que compõem o relatório final, hoje disponível no site da ESOCITE.BR.
Ao longo do trabalho, alguns aspectos chamaram particularmente a atenção da Comissão. O primeiro foi a predominância de pessoas que se declaram como do sexo feminino entre os associados ativos: 56,4% se enquadram nessa categoria, maioria presente em quase todas as modalidades de associação. Esse dado contrasta, no entanto, com a história da própria entidade: em 15 anos, apenas uma mulher ocupou a presidência da associação, embora haja forte presença feminina em cargos de vice-presidência, no Conselho Deliberativo e em outras instâncias diretivas.
Outro ponto destacado foi a concentração regional e institucional. Aproximadamente 83% dos associados ativos estão no eixo Sul-Sudeste, confirmando uma tendência já observada nas ciências brasileiras em geral. Essa concentração, observa a Comissão, não é homogênea: dentro de cada região, há disparidades significativas. No Sudeste, por exemplo, o estado de São Paulo reúne 244 associados, seguido por Minas Gerais (144) e Rio de Janeiro (125), enquanto o Espírito Santo conta com apenas seis. Além disso, apenas dez instituições concentram cerca de um terço do total de associados ativos, entre elas a Universidade Federal de São Carlos, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Comissão atribui essa concentração a trajetórias institucionais que consolidaram linhas e grupos de pesquisa em Estudos CTS, além da realização de simpósios que funcionaram como polos de atração.
A composição etária também se mostrou reveladora. A associação é formada principalmente por pessoas em idade jovem e adulta de meia-idade, com destaque para as faixas dos 30 e 40 anos, que somam juntas mais de 60% do total. O cruzamento com categorias de associação revelou que muitos associados ativos na faixa dos 30 anos estão em doutorado ou atuando como profissionais, enquanto entre os 40 anos predomina a atuação profissional consolidada. Para a Comissão, esse dado aponta ao mesmo tempo para a vitalidade da associação e para um desafio de futuro: o da renovação contínua de suas bases, à medida que esse grupo mais numeroso envelhece e se desloca para faixas etárias superiores.
Mais do que um exercício estatístico, a Comissão entende o relatório como um esforço de preservar a memória institucional da ESOCITE.BR. O documento funciona como um retrato da associação em movimento, capaz de sinalizar potenciais e fragilidades. A partir dele, podem ser desenhadas estratégias para mitigar desigualdades e ampliar a diversidade interna. Nesse sentido, uma das recomendações centrais é a inclusão, na Plataforma de Membros, de campos específicos para identidade de gênero e identidade étnico-racial. Essa mudança permitiria não apenas maior visibilidade da diversidade dos associados, mas também a formulação de políticas mais adequadas de enfrentamento às desigualdades de gênero e raça.
Os dados também evidenciam desafios persistentes de representatividade. Regionalmente, a associação precisa avançar na descentralização, já que apenas 16% de seus membros ativos estão nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em termos de gênero, há o paradoxo de uma associação majoritariamente composta por pessoas que se declaram do sexo feminino, mas que pouco refletiu isso em sua presidência ao longo de sua história. No plano racial, a ausência de dados detalhados é, por si só, um alerta, e reforça a necessidade de mudanças na coleta de informações. Já no aspecto institucional, a concentração em algumas universidades indica tanto a força de certos polos quanto a oportunidade de expansão para outros espaços, incluindo instituições de ensino básico e movimentos sociais.
Ao reunir esse conjunto de informações, a Comissão de Pesquisa e Memória acredita ter dado um passo fundamental para consolidar a história da ESOCITE.BR. O relatório não apenas preserva a trajetória da associação, mas oferece ferramentas para seu fortalecimento e expansão, colocando em pauta os dilemas e as desigualdades que atravessam o campo CTS no Brasil. Como afirmam os autores, trata-se de um diagnóstico inicial, mas estratégico, que deve inspirar ações e debates futuros para tornar a associação mais diversa, inclusiva e representativa de toda a pluralidade de saberes que compõem o campo.
Acesse o relatório completo aqui: https://www.esocite.org.br/index.php/memoria/dados-sobre-trajetoria-de-associativismo-da-esocite-br
Matéria elaborada por Fernando Monteiro Camargo (pesquisador de Jornalismo Científico FAPESP)
